Daniela Miranda - Professora de Introdução ao Estudo do Direito e Direito Civil
sábado, 4 de setembro de 2010
Ai de Nós, quem Mandou? publicado em 25 de agosto na Zero Hora
Mulheres ganham salários menores do que os dos homens, e líderes feministas seguem lutando para reverter essa injustiça. Mas já não sei se é boa ideia continuar batalhando por igualdade. Depois de ler o resultado de uma recente pesquisa feita pela Universidade de Harvard, fiquei inclinada a pensar que talvez seja melhor manter as coisas como estão. A pesquisa chama-se Schooling Can’t Buy Me Love (Escolaridade não pode me comprar amor) e confirma que mulheres que estudam mais acabam progredindo e, quanto mais bem-sucedidas, menores as chances de se casar. Os homens ainda não estão preparados para abrir mão da superioridade que o papel de provedor lhes confere. E mesmo os mais antenados, que apoiam que suas mulheres sejam independentes, ficam inseguros se elas tiverem cargos de chefia e muita visibilidade. Ganhar dinheiro, tudo bem, mas aparecer mais do que eles já é desaforo.
Beleza. O que vamos dizer para nossas filhas? Estudem, mas fazer doutorado e mestrado é exagero, antes um bom curso de culinária. Tenham opiniões próprias quando conversarem com as amigas, mas em casa digam só “ahã”, para não se incomodar. Usem seu dinheiro para comprar roupas, pulseiras e esmaltes, esqueçam o investimento em viagens, teatro e livros. E, na hora de se declararem, troquem o “eu te amo” por “eu preciso de você”, “eu não sou ninguém sem você”, “eu não valho meio quilo de alcatra sem você”. Homens querem se sentir necessários. Só amados não serve.
Que encrenca que as feministas nos arranjaram. Estimularam o pensamento livre, a autoestima, a produtividade e a alegria de trilhar um caminho condizente com nosso potencial. De apêndices dos nossos pais e maridos, passamos a ter um nome próprio e uma vida própria, e acreditamos que isso seria excelente para todos os envolvidos, afinal, os sentimentos ficaram mais honestos, e com eles os relacionamentos. O amor deixou de ser o álibi para um lucrativo arranjo social. Passou a ser mais espontâneo, e as carências de homens e mulheres foram unificadas, já que todos precisam uns dos outros para dividir angústias, trocar carinho, pedir apoio, confessar fraquezas, unir forças no momento das dificuldades. Todos se precisam da mesma forma, não de formas distintas. Mas há quem defenda que homem só precisa de paparico e mulher de quem tome conta dela, punto e basta.
Nunca imaginei que em 2010 ainda estaria escrevendo sobre isso. Achei que os homens já tivessem percebido o quanto ganham em ter uma mulher inteira a seu lado, e não um bibelô. Acreditei que a competitividade tivesse dado lugar a um companheirismo mais saudável e excitante, onde todos pudessem se orgulhar dos seus avanços e se apoiar nas quedas, mas que iludida: isso é coisa pra meia dúzia de emancipada, filha. Essas mulheres aí que não cozinham, não passam, não lavam, só evoluem, essas não são exemplo pra ninguém, são umas coitadas de umas infelizes que pagam as contas e ainda se acham divertidas, se fazem de inteligentes, querem bater perna em Nova York, pois vão arder no fogo do inferno, vão amargar na solidão, vão se arrepender de ter lido aquela Simone de Beauvoir, vão morrer abraçadas aos seus laptops, aqui se faz, aqui se paga, escreve aí. Tamo ferrada.
sábado, 31 de julho de 2010
Democracia e Direitos
Assim, a democracia não se separa dos direitos, tampouco é reduzida ao governo da maioria, pois a idéia de bem comum atrela-se ao utilitarismo.
A vida política é feita de oposição entre decisões políticas e jurídicas que favorecem os grupos dominantes e o apelo a determinada moral social que defende os interesses dos dominados ou minorias e é escutado porque contribui para a interação social (TOURAINE).
Portanto a democracia não pode ser reduzida ao procedimentalismo estatal, tampouco aos interesses individuais.
Para a democracia é indispensável a recusa de toda essencialidade do poder.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
Emergência Feminista
Dois casos de morte de mulheres estão na mídia no país: o caso da advogada paulista e da ex-namorada do jogador de futebol.
Ambos tornaram notório o machismo que se vive no Brasil e na América Latina. Milhares de mulheres sofrem todos os dias agressões físicas de seus namorados, maridos, companheiros,...
No entanto a mídia tem discutido a questão dos jogadores de futebol e o fato de eles serem suscetíveis às mulheres que almejam lhe dar um "golpe". Dá-se espaço na mídia para a “culta” opinião dos jogadores de futebol.
Isso demonstra a gravidade do problema do machismo no país. Ao invés de discutirmos as raízes culturais e as questões do feminismo, estamos justificando comportamentos machistas e sexistas.
O machismo é a barbárie! Simone de Beauvoir, no livro O segundo sexo, denúncia as raízes culturais e sociais da desigualdade sexual, no qual as teorias feministas passam pela necessidade de compreensão do universo no qual a mulher está inserida a partir da construção social da condição.
Da década de 60 pra cá, permanece a hierarquia mascarada pela diferenciação de papéis. Essa diferenciação é cultural, social e precisa ser modificada.
A discussão pública sobre as questões que envolvem machismo e feminismo é emergente.
O comportamento masculino tem se estabelecido na visão midiática, não havendo discussões nem incentivo às ações sociais e cívicas do feminismo.
domingo, 27 de junho de 2010
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009
A Emergência de ser Sujeito
Paradoxalmente, a modernidade se caracteriza pela liberdade humana, uma vez que a passagem para a modernidade não significa a passagem de um mundo de múltiplas possibilidades para o mundo da razão, ao contrário, ela triunfa pela busca da não conformidade de um mundo medieval-feudal para um mundo múltiplo de possibilidades, no qual os Direitos do Homem traz consigo a liberdade e a autonomia dos sujeitos à própria vida.
Assim, continuamos a chamar de modernidade o que é a destruição de uma parte essencial dela mesma. Não existe modernidade a não ser pela interação crescente entre sujeito e razão, entre a consciência e a ciência. A idéia de que era preciso renunciar o sujeito para que a ciência triunfasse, que era preciso sufocar o sentimento e a imaginação para libertar a razão, e que era necessário esmagar as categorias sociais identificadas com as paixões, mulheres, crianças, trabalhadores e colonizados, sob o jugo da elite capitalista identificada com a racionalidade, foi uma imposição!
A imagem da modernidade ficou por muito tempo ligada à idéia de renúncia aos prazeres e à criatividade em nome de uma sociedade centrada na produção do trabalho, mantendo-se um forte elo entre modernidade e racionalização. Essa relação é perceptível na obra de Weber sobre as relações entre o protestantismo e o capitalismo.
No entanto, o sujeito ultrapassa a concepção de indivíduo racional, não é possível despersonalizar o sujeito à própria razão.
O mundo moderno não é um mundo de complexidade reduzida ao indivíduo, mas é cada vez mais ocupado pela referência a um Sujeito que está liberado, que coloca como princípio do bem o controle que o indivíduo exerce sobre suas ações e sua situação, o que lhe permite conceber e sentir seus comportamentos como componentes da sua história pessoal de vida e de conceber a si mesmo como ator. O sujeito é a vontade de um indivíduo agir e de ser reconhecido como ator.
Em princípio somos todos indivíduos e só nos tornamos sujeitos a partir do reconhecimento social.
Somos freqüentemente atingidos por esta doença da civilização. Por um lado, vivemos um individualismo narcisista; por outro somos tomados pela nostalgia do ser sujeito.
Enquanto o indivíduo se fragmenta nas múltiplas realidades, revela-se fragilizado e submisso à cultura das indústrias de comunicação de massa. O sujeito passa pela idéia de resistência ao mundo impessoal do consumo ou ao da violência e guerra. O sujeito nunca se identifica consigo mesmo, mas se situa na ordem dos direitos e dos deveres, na ordem da moralidade,...
Somos continuamente desintegrados, fragmentados e seduzidos, passando de uma situação a outra, de uns estímulos a outros. Perdemo-nos na multidão de nossas situações, de nossas reações, de nossas emoções e de nossos pensamentos. O sujeito é um chamamento a si mesmo, uma vontade de retorno a si mesmo, em sentido contrário à vida ordinária.
O sujeito não se reduz a ele mesmo na sua própria experiência imediata. A defesa dos cidadãos frente aos arbítrios do Estado é uma defesa do sujeito, daqueles que não suportam ser considerados como recursos humanos passíveis de ser utilizados eficazmente a serviço do Estado ou da empresa.
Enquanto o indivíduo se situa na ordem da experiência, do desejo e da percepção, o sujeito se constitui no seu duplo que é a ordem do direito a ter direitos, de fazer com que todos tenham direitos.
O sujeito, ao contrário dos indivíduos, só se configura pelas ações coletivas, se reforça pelas instituições e pela luta por grandes causas.
O sujeito é sempre grandioso!